quinta-feira, 12 de março de 2009

Uma outra maneira de viver a gravidez...

Neste blog penso que nunca comentei a minha relação com o teatro, mas sou muito ligada ao palco, ao cheiro que ele têm.
Neste momento estou afastada do teatro por opção própria, porque a vida pessoal e profissional não é compativél, com o tempo que gostaria de continuar a dedicar ao teatro.
Uma das últimas coisas que fiz (que escrevi), foi uma peça que fala entre outras coisas, da gravidez na adolescência e também da toxicodependencia...
Este texto fala de uma rapariga, com cerca de 16/17 anos, filha de pais bem postos na vida, mas que falharam numa coisa essencial... dar amor a esta rapariga.
Para se afirmar, a vida complica-se, entra no mundo da toxicodepencia e num acto de loucura, misturado com esquizofrenia, mata o namorado de quem tinha engravidado, porque este a queria obrigar a prostituir-se.
Este diálogo que aqui deixo já é passado na prisão, quando espera o seu julgamento.
Aqui aparece também uma outra versão da maternidade, a da mãe (guarda) que perde um filho
Se quiserem comentar, estejam à vontade, mesmo que seja para dizer que não concordam, que está mal escrito, que não tem fundamentos ou lógica, opiniões aceitam-se...

"(...) Presa 1 – Estive a sonhar com o sol, com as nuvens, elas pareciam algodão doce.
Vi-te correr para mim, tinhas tantos caracóis... e eu afagava-te o cabelo.
Tu sorrias, depois fugiste e eu corri atrás de ti, mas já não te consegui apanhar. Fugiste e eu não fui capaz de ir atrás de ti. Mas não importa, foi só um sonho mau, tu estás aqui e eu vou proteger - te sempre. Quando sair daqui a nossa vida vai mudar. Não vou voltar a tocar em nada, vou arranjar um trabalho, vou voltar a ter uma vida.
E vamos ser muito felizes, filho. Vamos, não vamos? Tu vais ajudar a mãe a ser uma pessoa melhor.
Vamos construir tudo de novo, vou-te dar o amor e o carinho que nunca tive.

(Mudando de atitude, olhando para um dos lados do palco, como se estivesse a ver alguém, fala de forma a ganhar uma personalidade agressiva)

O que é que tás aqui a fazer? Vai-te embora, vai, desaparece da minha vida...

(Agarrando na cadeira ameaçando a personagem imaginária)

Vens roubar o meu filho outra vez? Não vou deixar, vou enfrentar-te cara a cara.

Matei-te uma vez, matar-te-ei quantas vezes forem precisas, mas o meu filho não mo vais tirar.
Lembras-te? Quando eu te disse que estava grávida, eu estava tão feliz. E tu?
Tu nem quiseste saber, mandaste-me para a má vida e quando te disse que não ia, bateste-me porco...
Um dia, tavas tão passado, que tiveste a lata de me dizer que eu tinha que abortar. O quê?

É que nem penses, respondi eu, se não queres este filho, eu quero, é a minha razão de viver.
Nessa noite quando estavas a dormir, nem deste conta, sufoquei-te até à morte e não me arrependo de nada, fazia-o de novo, quantas vezes...


(Ouvem-se do lado de fora do palco baterem na parede e gritarem)

Vozes – Cala-te ó xanfrada, o pessoal quer dormir...
Gaja, vê lá se te calas, se não vamos ai e cortamos-te o pio...

(Guarda entra e pergunta-lhe)

Guarda –
Então, hoje não se dorme?

Presa 1 – Ele está ali, veio cá para levar o meu filho. Tás a vê-lo? Ali, encostado à parede...

Guarda – Está descansada que ele vai-se já embora.

(Guarda dirige-se quase à boca de palco e faz de conta que está a falar com alguém)

Ó rapazinho, vá, põe-te na alheta. A andar daqui para fora. Vá lá...
Vês como ele é obediente, já foi...

Presa 1 – Ele ainda tá ali à porta a rir-se de mim.

Guarda – Não ouviste o que eu te disse? Lá para fora....
Agora nós, o que é que se passa hoje? Não consegues dormir?

(Presa 1 vai - se sentar na cama abraçada aos joelhos, balançando o corpo. Guarda fica de pé a ver)

Presa 1 – Eu quero dormir, mas a minha cabeça não me deixa... Tenho tudo misturado cá dentro. Sinto-me angustiada...

Guarda -
É normal, estás a viver um momento de grande pressão. Mas tens de te acalmar, isso não faz bem nenhum ao teu bebé. Ou queres que ele já venha para ai a berrar que nem um bezerro. Vá lá, tens que descansar...

(Guarda senta-se na cama, fazendo com que a Presa 1 se deite no seu colo)

Eu fico aqui até tu adormeceres...

Presa 1 – Tu tens filhos?

Guarda – Tive, uma filha... mas morreu. Devia ter agora seis anos, mas morreu... a minha filha morreu.

Presa 1 – Contas-me uma história?

(Guarda assentindo com a cabeça, faz-lhe festas no cabelo e conta-lhe a história)

Guarda – Era uma vez uma pequena sereia, tinha os olhos azuis, profundos como o mar, o seu cabelo era um emaranhado de algas que soltavam um perfume suave, único. Quando nasceu parecia um pequeno botão que aos poucos foi desabrochando. O mundo foi-se apresentando a ela, a vida foi-se renovando a cada dia que passava. As cores do arco-íris eram ainda mais intensas no fundo do mar. Até que chegou um dia em que o ciclo de vida se fechou, as cores já não eram vivas, mas sim sombrias, o sorriso da menina foi-se apagando, até que um dia desapareceu por completo. Um eco profundo invadiu o fundo do mar, deixando todos quantos lá viviam tristes com a partida da menina....

(Presa 1, acaba por adormecer, guarda continua a contar a história acaba por adormecer. Luzes baixam ficando o palco quase na escuridão. (...)"

4 comentários:

  1. Olá! Adorei! Eu tb gosto muito de teatro e tenho a dizer-te que escreves muito bem! Parabéns e nunca pares!

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  2. Olá Sílvia, obrigado pelo comentário...
    Gostava de saber um pouco mais de ti, mas não tens o teu perfil disponivél, também tens algum blog?

    Diz-me coisas...
    Jokas
    Sandra C.

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  3. Olá Sandra! Olha não tenho blog, mas se me quiseres conhecer melhor não há problema nenhum, dizes-me que eu dou-te o meu mail. Ainda por cima temos pelo menos uma óptima coisa em comum: a nossa gravidez ( eu estou com 25 semanas. Tb gosto de teatro e adoro gatos, tal como tu! De perfil, só tenho mesmo um perfil no hi5. Bjs grs e diz qq coisa!

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  4. Olá de novo...
    Se quiseres escrever-me, podes fazê-lo para sandra.cabacos@gmail.com

    Jokas
    Sandra C.

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